REFLEXÕES (IN)ÚTEIS SOBRE POESIA, POETAS E TRABALHO POÉTICO
Toda a poesia que, largando os suportes "espaço" e "tempo", se afasta da descrição ou da narrativa e eleva a realidade à sua própria conceptualização para a tornar, dessa forma, mais abrangente e mais intemporal, sem perder minimamente o seu vínculo aos princípios éticos do poeta/escritor, exige uma muito maior reflexão, um muito mais extenso tempo de maturação e constrói um compromisso inamovível entre ele/ela, poeta, e essa mesma realidade depois de filtrada pelos tais nunca esquecidos princípios.
Para os poetas que trabalham a realidade a esse nível, a carga de energia que cada poema contém é obtida através da concentração e da reflexão. É evidente que não vou fazer citações pois nunca escondi que era uma poeta muito mais ligada à produção do que à teorização, que deixo para os que se sintam mais vocacionados para esse tipo de trabalho de pesquisa e para os que possam dispor de facilidades de acesso a fontes documentais de que eu não disponho neste momento da minha vida.
Não sou, também, uma boa comentadora. Nunca o serei. Raramente o são, ou foram, os poetas que produzem este tipo de poesia que, como todos os outros, está fortemente ligada às características, à educação e à vivência de cada um de nós.
A todos os eventuais leitores que pretendam encontrar, em toda a minha poesia, a descrição de alguma coisa ou uma história de apreensão imediata, lembro, mais uma vez, que cada poeta tem as suas próprias características e que a poesia é um vastíssimo universo de formas, estilos e conceitos estéticos.
Se é certo que me não seduz, mesmo nada, a ideia de "poesia pela poesia", não é menos certo que a realidade é passível de ser traduzida e trabalhada de formas muito menos óbvias do que as que devem ser - por imposição das suas próprias características - adoptadas numa notícia, numa sinopse, num recado, numa bula, num roteiro turístico ou num anúncio, seja o que for que ele anuncie.
Aprende-se a ler poesia, lendo-a e fazendo alguma análise comparativa e dedutiva. Mas não só.
Maria João Brito de Sousa - 03.09.2015
NOTA - Mais uma vez lembro que estas reflexões, sendo fruto de muitos anos de trabalho poético, não se dirigem a ninguém em particular e que as publico apenas por me parecer que podem ir ao encontro de quem pense e sinta de modo semelhante ou ao de quem nunca tenha tido a oportunidade de reflectir sobre este assunto e por ele se sinta interessado a ponto de o ler até ao fim.
Interessante e importante a sua reflexão!
ResponderEliminarFoi um tanto ou quanto irreflectida, esta minha publicação que brotou de um impulso do momento, mas estou convicta de que a escreveria de novo, hoje, depois de mais reflectidamente amadurecida, amigo Francisco Carita Mata. E penso, também, que muitos dos poetas que deixaram de estar entre nós o subscreveriam... se, como eu, se vissem na contingência de terem de publicar "online"...
EliminarClaro que sei que sempre houve uma profunda influência do meio, sobre eles, mas esta velocidade vertiginosa não é nada fácil de acompanhar para quem se dedica profundamente à poesia clássica, acredite! As opções passaram a ser mais ríspidas, mais prementes, o tão necessário tempo de reflexão e revisão foi reduzido à quase inexistência e as solicitações exponenciaram-se, elevadas ao cubo de todas as humanas capacidades de responder-lhes...
Se tem muitas, enormes vantagens, é bem certinho que a escrita se tornou muito mais difícil. Faço constantemente esta comparação quase subconsciente; sera que as pessoas também passaram a saltar para a pista, barrando o caminho aos atletas corredores? E agarrarão o braço que leva a enxada à terra, a meio do seu percurso? Travarão, também, a mão do oleiro que molda o pote? E, se o fazem, terão consciência disso?
Peço desculpa pelo longo comentário, mas parece-me que pode haver aqui muita coisa em causa e penso ter, também eu, uma palavra - ou muitas... - a dizer. Obrigada!