ENREDOS
Reparei nela assim que entrou na sala de espera. Foi o som que primeiro me chamou a atenção, o estalar ritmado e seguro de saltos altos na cerâmica que cobria o chão. Ainda hoje, quando penso nisso, não consigo perceber como a ouvi chegar . O meu olhar colado à porta do consultório parecia ter monopolizado os outros sentidos e ouvir fosse o que fosse que viesse de outro ponto da sala, seria muito improvável. No entanto ouvi-a e o som tornou-se suficientemente intrigante para me fazer desviar olhos e atenção, rodar o tronco no sentido oposto e deixar-me afundar num arrepio de pânico quando confirmei a suspeita levantada, algures no meu cérebro, pelo familiar tic-toc dos passos da minha mãe. Estava ali, a alguns metros de mim, debruçada sobre o balcão de atendimento, interrogando com a sua proverbial segurança a empregada de serviço. Como me irritava e simultaneamente assustava aquela inabalável segurança de quem sabe exactamente o que faz e porque o faz! Um suor frio cobriu-me o r...