CRONICONTO
Foi ao anoitecer de um qualquer sábado por inventar. Era um caracol. Um belíssimo e bem desenvolvido molusco gastrópode do género Hélice. Chamava-se José Maria. Não porque isso lhe fosse útil para se distinguir entre os seus ou porque, sequer, tivesse um aparelho fonador que lhe permitisse pronunciar uma aproximação de nome. Nada disso. Aquele caracol chamava-se José Maria porque eu, naquele final de tarde assim decidi o baptizar. E isso me bastou a mim e a ele lhe foi absolutamente indiferente. José Maria teve um curto percurso nesta crónica de um dos meus momentos de rua… descobri-o enquanto se salvava de um canteiro ensopado pela chuva que, naquele dia, parecia eternizar-se. Escapou por um triz à sola do meu sapato e continuou, viscoso e decidido, o seu caminho pelas pedras da calçada em direcção a “sabe Deus o quê”… e Deus, naquele cair de noite, não se dignou proteger o rasto viscoso mas impoluto do desafortunado José Maria. Um homem de fato cinzento, alto, entroncado, caminha...