DA GÉNESE DA COR
DA GÉNESE DA COR
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A mulher recostou-se no banco de jardim, afastou com um brusco abanão de cabeça as madeixas grisalhas que lhe cobriam o rosto, respirou fundo e retomou a escrita que deixara de lado para uma última fumaça do Português Suave.
Ao longe, o mar endiabrado fazia soar o ribombar das ondas. Ela não ouvia… ou ouvia, mas interiorizava o som como se de coisa sua se tratasse. Recebera, ao nascer, esse estranho dom de se identificar com os eventos naturais. Alguns chamar-lhe-iam subjectividade. E assim era.
Passavam mulheres e carros incolores, homens mais ou menos monocrómicos, folhas indefinidas e baças levadas pelo vento. Passavam os minutos no harmonioso encadeamento de todas as inevitabilidades.
Só a mulher mantinha um estatismo apenas quebrado pelo ziguezaguear da caneta. Era nela e dela que as palavras jorravam em imparável torrente. Começavam num ponto bem definido do canto superior esquerdo da página e corriam, depois, em riachos que aumentavam, segundo a segundo, o seu caudal e acabavam por se infiltrar nos mais improváveis recantos da paisagem circundante.
Insinuavam-se, por vezes, sob os frondosos vestidos, adentravam as mais pequenas concavidades das coisas anónimos, subiam aos mais altos ramos dos choupos e abrunheiros nas asas dos pássaros que por ali voavam. De quando em vez, abrandava-as um pouco ou fazia-as parar nas negras penas dos melros que debicavam no passeio. A seguir deixava-as rodopiar sobre uma folha que o vento arrancava aqui e ali ou fundia-as nos multiplicados sons de fundo daquele jardim à beira estrada onde ressoavam, ainda, as ondas do mar.
O homem aproximou-se com uma postura humilde, educada. Olhou-a com olhos de nenhuma cor e sentou-se a razoável distância.
Ela continuava a deixar fluir os ribeiros de palavras sem aparentemente notar o recém-chegado.
Ele apercebeu-se deles. Não os via, não os podia entender ainda, mas sentia-os por ali, ausentes de forma e cor.
Eram canais de comunicação, caudais de pura energia que desconhecia mas que o rodeavam e sobrevoavam de forma inequívoca. Esperou que alguns deles viessem a pousar sobre ele.
Os minutos passavam e ele continuava a pressenti-los, a subentendê-los nas suas volteias improváveis, eventualmente absurdas. Mais minutos passaram. Vislumbrava-os agora, ainda informes mas começando a tingir-se das tonalidades mais imprevisíveis. Acendeu calmamente um cigarro e manteve o olhar fixo nas volutas de fumo que subiam.
As primeiras a deixar-se ver foram as letras vermelhas. Faziam um harmonioso contraste com o cinzento incerto que se evolava do rolinho branco que deixara entre o médio e o indicador. A seguir vieram as negras, as rosadas, as azuis e as amarelas nas suas mais variadas tonalidades. As mais tímidas foram as verdes. Primeiro as escuras e depois umas atrás das outras em ondas de diferentes cambiantes. Conseguia já formar palavras, frases. Enxergava os ribeiros, avaliava-lhes o caudal, descortinava-lhes os movimentos mais ou menos ondulantes.
O cigarro morrera há muito quando, ao por do sol, se levantaram em simultâneo e, de mãos dadas, se dirigiram ao mar que se tornara manso como um espelho e branco como uma folha de papel de arroz.
Suavemente entraram nele até perfeitamente se fundirem e confundirem com a superfície que os recebia alegremente, numa súbita explosão de todas as cores do arco-íris.
Maria João Brito de Sousa
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