Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2010

ONTEM

Imagem
  Ontem “pintei a manta”! Ontem pintei o mar de cor- de- laranja. Ontem deixei-me pintar de cores que anteontem não poderia conceber. Ontem deixei que os mal-conhecidos me pintassem, me escrevessem, me grafitassem. Ontem fui outra dentro de mim própria… ou fui eu própria quem, dentro de mim, se pintou noutra? Ontem os carros transformaram-se em gigantescas caravelas de pau-rosa, navegando, serenamente em direcção à ilha de Samoa. A da guerra. A do grito de batalha. Ontem, porém, só habitada por tartarugas milenares e esplendidas gaivotas de jade. Ontem os homens foram brinquedos frágeis. Deuses de filigrana e pés de barro, pequenas libélulas de asas delicadas, perecíveis. Ontem desenganei-me, chorei e depois ri. Ontem ri e chorei antes de me desenganar. Ontem fui trágica. Ontem fui mágica. Ontem fiz malabarismos com granadas ofensivas e Haraquíri sem punhal. Ontem chorei sem lágrimas, cantei sem voz, gritei em silêncio. Ontem foi ontem. Hoje, amanhã e depois será, também, ontem.     Ma...

SE...

Imagem
  Se as formigas não tivessem asas - exactamente no dia em que as crianças retomam a rotina da escola, depois das férias -, se os pardais que moram por cima da minha varanda não tagarelassem num chilreio interminável - exactamente a seguir às férias do Natal - , se as ervas moirinhas não desabrochassem, como por magia, de brechas nos monstros de cimento armado ou das frinchas dos lajeados compactos da calçada, mal faz sol, mal cai chuva... se não existissem - ou nunca tivessem existido - bombas de neutrões, traficantes de heroína, antenas parabólicas, a Pide, Chernobyl, Hiroshima, Auschwitz... se Rudiard Kippling não tivesse escrito o "If"... como poderia eu ter alguma credibilidade perante mim própria?     Maria João Brito de Sousa -  in "Diário`s" - 1993 (inédito)

O CORPO ESTRANHO

Imagem
  Ela não encontrava a chave. Procurou-a, em vão, nos bolsos do blazer e das calças. Procurou, desesperadamente, em todos os compartimentos da mala. Nada. No entanto recordava-se perfeitamente de a ter guardado algures, antes de sair a porta. Aquela mesma porta que ela costumava amar sempre que abria para sair e odiar, sempre que abria para entrar. Desta vez, nem ódio, nem amor. Nenhuma porta podia ser aberta sem chave… a não ser no conto de Aladino. Não havia chave… não entraria! Acalmou, por fim, e tentou raciocinar. – Não há acasos!, pensou. Se a chave não aparece e a porta se não abre, é porque eu não devo entrar! Cerrou decididamente os olhos e tentou entender o porquê. A mesma ausência de resposta. Mais ainda… não havia sinal de vida.   Não havia rigorosamente nada passível de ser entendido. Àquela hora da madrugada seria suposto os edifícios estarem a abarrotar de gente. Alguns ainda a dormir e outros alguns correndo para os chuveiros, para as portas, movendo-se apressadamente,...