A MÓ DOS DIAS

 


A MÓ DOS DIAS

De quando em vez, invadia-a aquela nostalgiazinha dos dias em que escrevia à mão, na paz e no sossego de quem se sabe pontualmente só. Da solidez da velha secretária para a solidão da também velha gaveta, ultrapassada a exaltação do momento criativo e uma ou outra esporádica e muito efémera passagem por uma oralidade que, quase sempre, fazia ricochete nas paredes vazias ou nos ouvidos desatentos das crianças, os poemas nasciam-lhe e morriam-lhe quase sempre assim, sob a desdita inglória de virem a servir de suporte a um recado deixado à pressa ou a uma lista de produtos frescos e temperos que a sua faceta de “cozinheira por força das circunstâncias” lhe ia impondo na mó dos dias, em tudo diferentes destes dias outros e, as mais das vezes, ainda menos satisfatórios do ponto de vista criativo, segundo - agora e apenas agora - se ia dando conta. Considerava, porém, demasiado alto, o preço que, no presente, tinha de pagar pelo simulacro de privacidade que aparentemente conquistara. E, de novo, a recém adquirida nostalgiazinha a invadia, trazendo consigo, desta vez, a imagem imponente do avô poeta que se opunha veementemente a que a mãe, menos conhecedora destas incompreensíveis necessidades criativas, a viesse espreitar por cima do ombro enquanto escrevia ou pintava.


Maria João Brito de Sousa – 07.02.2015


 


 


 


 


 

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