CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA NOITE DE CÃIBRAS


 


 


Merda para as questões que nunca me puseram!


Um soprozinho de nada, a arder por dentro dos sentidos, um arrepio qualquer no virar da esquina de uma frase ambígua, um toque de raspão onde a colisão das decisões deveria impor-se. Coisas, demasiadas coisas por dizer num universo inteiro de intuições evitáveis.


Falta-me tempo e eles não podem sabê-lo. Falta-me vida onde descrêem da mera ousadia.


A palavra, por vezes, treme-me na agonia dos dedos crispados, desequilibra-se e estatela-se desfeita nos cacos da chávena de chá. Assim a bebo, assim a sirvo – quando a quereria intacta, mesmo que menos útil… – apenas aromatizada pela breve, breve memória das ilusões que há muito deixei de comprar na loja falida das coisas demasiadamente supérfluas para se tornarem duradouras.


Nas ruas mais ou menos degradadas do meu corpo cruzam-se, a cada instante, homens, mulheres e crianças cobertos de todas as fomes, de todas as sedes. Nenhum egoísmo – do pouco que me resta nas prateleiras do armáriozinho dos últimos socorros – os poderá fazer retroceder.


Paro. Descanso de mim mesma. Que não deles, que não do cinzento que os cobre desse entardecer de todas as esperanças. Depois retomo o ritual do chá inevitavelmente derramado, em líquidos estilhaços sobre um pedaço de chão que se perdeu no tempo. Sirvo-o, ainda que tardio. Sirvo-o, ainda que o saiba um sucedâneo das colisões frontais que nunca aceitariam entender.


Sobra-me, sempre, uma vontade incómoda a resistir no derradeiro reduto de cada contrariedade.


 




 


 


Maria João Brito de Sousa – 29.05.2012 – 03.00h




 


IMAGEM - Tela de Pablo Picasso retirada da net. Trabalho ilustrativo do seu período de cubismo analítico.

Comentários

  1. Eu sei que está tudo aí, embora nem tudo eu consiga ver, mas os nossos olhos necessitam sempre de outros olhos.

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    1. Olá, Poeta! Deve estar mais do que eu mesma lhe saberia explicar neste momento em que o cansaço veio substituir as cãibras. Estava zangadíssima quando escrevi isto e, agora, já não estou... mas acontece-me dialogar assim com alguns dos meus estados de alma ou mesmo com alguma dor física daquelas que não chegam a conseguir emudecer-me de todo... acho que foi isso mesmo que eu quis dizer no parágrafo final... quis dizer à dor que ela me não tinha vencido de todo... mas também não foi fácil encontrar a imagem para estas "considerações". Acho que andei a explorar novos sentidos da palavra, tal como o velho Pablo experimentou - e conseguiu-o magnificamente! - explorar a tridimensionalidade, através do cubismo. O primeiro, o analítico, era o que melhor correspondia a esta minha experiência um tanto ou quanto maluquinha, de dizer, apesar da dor, tudo o que me viesse à ideia...
      Abraço grande!

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  2. Não sei porquê mas fiquei triste ao ler este texto...


    Bijinho

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    1. Não era minha intenção entristecer ninguém, Golimix...
      foi apenas um desabafo rápido que, de alguma forma, me ajudou a ultrapassar um episódio fisicamente doloroso e, infelizmente, muito frequente... escrevi isto numa folha de papel, nem sei bem porquê... de manhã pensei que não estava assim tão mau que não pudesse vir preencher o lugar de uma crónica e... cá o deixei.
      Dou-te um abraço maior do que o costume e tu esqueces este texto maluco... combinado?

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    2. Eu sei que faz bem escrever as nossas dores, é estranho mas escritas parece que ficam em palavras e não tanto no corpo, acho que ganham outra dimensão.

      Bijinho grande e bom fim de semana

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    3. Tentei visitar-te ontem mas a net deu em fazer braço de ferro comigo... mal eu acedia, ia-se abaixo! E hoje deixou-me "pendurada" toda a manhã... nem sequer abria!
      Desabafar faz bem sim senhora! Não cura mas ajuda-nos a ultrapassar os momentos mais difíceis... e não tem nada a ver com os pessimismos crónicos que acabam por desembocar nas teorias do eterno sorriso. Um desabafo pode acabar por se revelar um texto razoável ou, nalguns casos, muitíssimo bom... não é o caso deste mas já vi alguns textos e poemas excelentes que transpiram desabafo por todos os poros.
      Vou ver se consigo ir aí agora, Golimix...

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