CARTA MUITO ANTIGA A UM AMIGO URGENTE


 


Curto muito a minha “panca”, meu caro. Assumo-a e jamais me demitirei dela.
(merda! Entornei o garoto e deixei cair a palhinha…)
Neste vigésimo terceiro dia do mês da Loucura da Era do Ovo, gostaria de dizer-te – e dir-to-ei! – que apenas me sinto grata e que, para mim, a gratidão é um sentimento, no mínimo, deplorável.
Dir-te-ei, também, que estou desiludida… mas, disso não tens tu culpa… estou, muito provavelmente, desiludida comigo mesma.
És apenas um homem e, na verdade, nunca me pediste as asas que, amorosa e estupidamente, fui tecendo para ti.
Homem, esta minha “panca” – não tenciono demitir-me dela, repito! – queria, de mim, que tu voasses… que queres? Eu bem te tinha avisado…
E queria mais, esta minha assumidíssima imitação de loucura! Queria que fosses o irmão que nunca tive, o menino que partiu, o poeta que não és… e talvez (?) te quisesse a ti também… sempre no pretérito mais-que-perfeito do verbo impossível, imagina!
Não te preocupes. Não enlouqueci de vez. É que esta lucidez indigesta e excessiva andava a fazer-me mal e o meu avô escrevia-me de “anjos que têm olhos fundos como espelhos, olhos de ver através das almas”. Nem penses em culpar-me da inocência de ser como sou. Aceita-me apenas e nunca me rotules porque, às papoilas, ninguém pode fazê-lo. Verdade, verdadinha; a elas, de magoadas, caem-lhes as pétalas todas e os senhores doutores, esses, ficam desconcertados…


Post Scriptum – Perdoa-me. Sinto que foste injustiçado… é que, um destes dias, ao entrar no teu gabinete, – tinha-me, decerto, esquecido de pôr os óculos cor-de-rosa… - pareceu-me ver em ti um homem. Um homem, assim, igualzinho a todos os outros, capaz dos mesmos erros, passível dos mesmíssimos defeitos…
O caminho para aí ERA sempre igualzinho à interminável Estrada de Tijolos Amarelos e eu tinha feito de ti o meu feiticeiro de Oz do Antes-da-Gravidade-e-Tudo-o-Mais…
Soubeste-me, vagamente, às milenares reminiscências dos anjos da guarda… imaginei-te protecção, porto sereno, fortaleza e armadura… apesar das limitações burocráticas e da inevitabilidade das taxas moderadoras.






Maria João Brito de Sousa – 23.05.1993 – 21.20h


Comentários

  1. êêê láááá´´hé hé hé

    vejo que o bom humor
    tá em dia...e por isso

    vai uma flor


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    1. Anjo, acredites ou não, este texto foi escrito às vinte e uma horas e vinte minutos do dia vinte e três de Maio de 1993... também me passaste pela cabeça - salvo sejas! - quando o encontrei, por mero acaso... e olha que eu não minto mesmo. Aliás tenho o original comigo, pelo menos enquanto o não voltar a perder nalguma gaveta ou algum dos gatos não decidir afiar as unhas nele... está velho, desbotado e amarrotado qb. Nem um falsificador profissional conseguiria envelhecê-lo assim...
      Obrigada por teres gostado e pela flor!
      Vai uma também para ti!

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  2. Oxalá continue a encontrar cartas destas ;)

    Um beijito e bom domingo

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    1. Olá, Golimix!

      Encontro-as sempre por mero acaso, quando vou à procura de outra coisa qualquer...
      Mas vou ser breve porque acabo de perder duas longas respostas ao amigo Eduardo que me deixou umas décimas fabulosas no Poetaporkedeusker. Receio bem não conseguir publicar este comentário... acho que a net está doidinha de todo...
      Um bom Domingo e um abraço grande!

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  3. gosto destas tuas dissertações...que assim é que é...

    feliz noite

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  4. depois dessa azáfama matinal
    uma feliz tarde pra ti

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    Respostas
    1. Uma feliz tarde para ti, Anjo!
      Estou no CJ, sem som... terei de voltar para ver os vídeos que, entretanto, me possam aparecer pelo caminho... supondo que me consigo aguentar aqui sem adormecer e sem cair da cadeira :)) Nestes últimos tempos, as refeições têm, em mim, o efeito de comprimidos para dormir... :( Como qualquer coisita e fico como os bebés... por mais que me esforce por lutar contra o sono, ele acaba por me vencer... e a lei da gravidade dá conta do resto :))
      Abraço gde!

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    2. não sei o que é o CJ

      e eu ao contrário
      dormir
      é que são elas...

      feliz tarde MJ

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    3. Desculpa, Anjo. Este teu comentário escapou-me na caixa de correio... que está uma vergonha...
      Já cá estive, há pouco, a tentar responder-te mas - e aí não sou culpada de nada... - a net "enmaluqueceu" e deixou-me sozinha, a escrever offline...
      O CJ é o Centro de Juventude onde costumo ir todas as tardes, depois do almoço. Tempos houve em que fazia o horário completo; manhã e tarde. Agora já me não aguento muito tempo sentada a teclar.
      Abraço e uma noite sossegada para ti!

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