CAVE OU COBERTURA?
Este nosso mundo também tem andares… ou patamares, sei lá! Deve ser assim, mais ou menos como os apartamentos de um edifício muito alto.
Quem o diz não sou eu, é gente da nova geração… mas partamos do princípio de que assim é e de que eu vivo, realmente, num “mundo-apartamento-de- cobertura”. O chamado primeiro andar, contando a partir do céu.
A coisa não foi tão pacífica como isso… transportou-me a tempos muito antigos, a uma situação de conflito que nunca entendi muito bem e que imaginava mais do que enterrada. Em resumo, foi-me “ atirada” em jeitos de ofensa, deixou-me algo surpreendida e fez a sua mossa. O suficiente para, num momento de intensa criatividade poética, me merecer estas linhas de prosa…
Passemos à parte contabilística da metáfora; o preço.
É caro- caríssimo! - morar num apartamento de cobertura... mas eu não sou tão elitista quanto costumam fazer constar por aí e, caso seja verdade, terei muito prazer em ter vizinhos nesta alheia – ma non tropo – e elaborada metaforazinha… desde que paguem o aluguer, tal como eu o pago…
Voluntários?
Qual preço? Que aluguer?, perguntarão os hipotéticos voluntários… Pois, ora essa! Tudo tem o seu preço e para se poder viver no “meu mundo”, é preciso pagar muito mais do que dinheiro! Em primeiro lugar é absolutamente necessário estar disposto a trabalhar dia e noite, com ou sem dores e febre, com ou sem lutos, até se atingir a capacidade de dominar o soneto clássico em decassílabo heróico. Que não tem nada a ver com isso?! Mas é claro que tem! É esse o meu trabalho… pelo menos o “grosso” dele. Mas… pronto! Pode ser qualquer outra forma de expressão artística, não vão acusar-me, também, de excessivo rigor…
Aceite esta primeira condição, passemos à segunda; - Não voltar a ter férias.
Outra vez o mesmo argumento? Pois claro! Eu, que até vivo “isolada” neste “mundo da cobertura”, nunca as tenho… nem sequer vou às consultas de gastrenterologia, reumatologia, otorrinolaringologia, urologia e oftalmologia, por não ter dinheiro para os transportes… e o mesmo se aplica aos muitíssimos convites que diariamente recebo para jantares, almoços, tertúlias, espectáculos e reuniões… e a verdade é que gostaria – e muito! – de poder aceitar alguns deles. Não menos, nem mais do que vocês gostam de ter as ditas férias…
Mais uma; - Passar fome. Passar muita fominha e ser capaz de viver do que os outros quiserem e puderem dar, quando e se houver. Não?! Ah, sim!!!
Uma outra, bastante antipática, mas que não deve ser esquecida; - Ouvir – e calar… - os “piropos” dos “trolhas cá do burgo” que independentemente da classe social, farão questão de vos lembrar, constantemente, que se o vosso trabalho não é de resultados imediatamente visíveis, não é trabalho.
Não vale a pena torcerem o nariz! Se não estiverem a produzir, nem que sejam penteados esquisitos e unhas de gel, e a ganhar – ao mês, à semana ou ao dia - , depois de assinarem um contratozinho ou dependentes de recibos verdes, nenhum destes idiotas aceitará que trabalham!
Aguentam… ou já começou a ser demasiado duro? É que isto é apenas o início e os “zeros” ainda nem começaram a ser acrescentados aos primeiros dígitos do preço… mas entendo. Neste momento já se identificaram com os “idiotas”, zangaram-se, ficaram indignadíssimos e fizeram o que toda a gente faz… viraram as costas à ideia, ao preço e ao pequenino mundo do andar de cima…
Agora só me falta compreender se o fizeram por serem tão exactamente iguais a toda a gente ou se acabaram por perceber que nem todos conseguirão estar à altura de pagar tão alto preço. Ou de trabalhar tão arduamente…
Maria João Brito de Sousa – 25.10.2010 – 19.27h
NOTA - Desculpem, mas eu avisei que este era mesmo um blog "explosivo"...
Oh minha querida amiga... Realmente o preço é altíssimo. E o trabalho é arduo demais. Ninguém, a não ser a minha amiga, teria "estofo" para viver em tal "mundo-apartamente-de-corbertura" com tamanhos custos.
ResponderEliminarBeijinhos
:) Há muitos como eu, Fá... mas este foi um post "zangado", só para desabafar... já passou. Já não o escreveria hoje porque já me passou a zanga :)) Mas o que está dito, dito está... eu tive muito boas razões para estar zangada e nunca disse que era perfeita. Cá tenho os meus dias em que "me salta a tampa" e saem coisas destas. Felizmente é só de vez em quando e passa logo a seguir ao desabafo :))
EliminarUm abraço grande!
Apartamentos e qualquer outra merda onde as pessoas estejam perto umas das outras é o maior NOJO que existe!!! Quem os inventou devia ter VERGONHA. E quem pode bater o pé e não morar num devia fazê-lo, porque se ninguém aceitar morar neles eles acabam... Leva tempo, mas acaba.
ResponderEliminarDesculpe-me, caro anónimo, mas informo-o de que não percebeu rigorosamente nada do que acabou de ler.
ResponderEliminarVotos de um feliz Outono