FIEVEL - Croniconto
O Fievel morreu hoje.
Perdão, ainda vo-lo não tinha apresentado... O Fievel era um rato. Um vulgaríssimo rato de pelagem castanha clara, tão habituado ao humano convívio ao longo de sabe Deus quantas gerações, que de nada lhe teria aproveitado se eu me tivesse decidido a soltá-lo nos bosques ou nas brenhas das penedias. O resultado teria, inevitavelmente, sido este. E vice-versa...
Eu gosto mais de lhe chamar irmão-rato, dados as paredes de cimento, os vidros e as grades que partilhamos, nesta nossa atitude de prisioneiros vocacionais e irremediáveis... Mas o Fievel era Alguém. Tinha um nome muito importante. Um nome que evoca um pequeno herói da BD Disney capaz de enfrentar gigantescos gatos, sempre em defesa dos fracos e oprimidos. O Fievel da história não morria nunca. Este, bem real, não conseguiu sobreviver a uma estirpe de Proteus Mirabillis. Tentei curá-lo! Tomei ares de Médica de Família, vesti a bata branca e lá me pus a tentar convencê-lo de que estaria, muito provavelmente, a somatizar. Tentei, também, uma outra vertente do discurso habitual e quis que ele percebesse que todos os seus males provinham do excesso de alimentos ou do excesso de tabaco. Rematei com uma tirada de mestra e dei a entender que o seu problema era tipicamente freudiano e que eu, enquanto "mater familias", seria a mais provável causadora das suas maleitas... Que estupidez a minha! O Fievel era demasiado inteligente para acreditar em mentiras burocráticas! Não era - nem nunca fora - hipocondríaco e, tanto quanto pude perceber, também não somatizava.
Só uma pequenina nota me deixou estupefacta... É que o Fievel, ao morrer, parecia estar a rir-se de mim. De mim e de todos os que, mais ou menos voluntariamente, entraram no universo caótico desta minha estranha luta pela sobrevivência alheia.
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Maria João Brito de Sousa - 05.03.1993
O Fievel morreu...
ResponderEliminarPobre rato! Espero que tenha sido de morte natural.
De outra forma, não posso acreditar.
Mª. Luísa
Já foi em 19993. Apanhei uns textos que escrevi nessa altura e lembrei-me de os aproveitar para o contra-sensual... mas ainda me lembro do Fievel. Sei que morreu doente, com um problema respiratório. Os hamsters têm uma vida muito curta, mas este ainda ia a meio do tempo normal de vida desta espécie.
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